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fev 17, 2026
Corelli e a Redescoberta das Sonatas Barrocas: A Interpretação Autêntica de Andrew Manze
Corelli: Das Lições Técnicas à Expressão Pura
Durante grande parte do século XX, as sonatas e concertos barrocos eram frequentemente tratados pelos violinistas como exercícios glorificados. Eram vistos como um fundamento histórico respeitável que precisava ser dominado, uma espécie de marco obrigatório no caminho para as obras “verdadeiramente grandes” do repertório romântico e moderno. A frase “Agora, vamos ao que interessa” ecoava em muitas salas de aula, relegando a música dos séculos XVII e XVIII a um papel secundário, quase pedagógico.
Essa abordagem refletia uma visão da história da música como uma linha evolutiva contínua rumo ao auge expressivo, menosprezando as convenções, a retórica e as intenções originais dos compositores do período barroco. A técnica moderna era aplicada a um repertório antigo, resultando em interpretações que, embora brilhantes, podiam soar anacrônicas e destituídas do espírito da época.
A Revolução da Música Antiga
Felizmente, as últimas décadas testemunharam uma revolução. O movimento da “música antiga” ou “interpretação historicamente informada” trouxe um novo olhar sobre esse repertório. Pesquisadores e músicos começaram a investigar minuciosamente as práticas de performance da época: os instrumentos de época (ou suas cópias), as afinações, as articulações e, principalmente, a linguagem retórica que dava sentido a cada nota.
O objetivo deixou de ser simplesmente “tocar Corelli” e passou a ser “compreender e comunicar o que Corelli pretendia”. Essa mudança de paradigma transformou completamente a experiência de ouvir essa música. O que antes soava como um estudo elegante, agora ressoava com drama, conversação, afeto e uma vitalidade surpreendente.
Andrew Manze e a Arte da Persuasão Barroca
É neste contexto que a gravação das Sonatas para Violino Op. 5 de Arcangelo Corelli por Andrew Manze se destaca como um marco. Manze, um dos expoentes máximos do violino barroco, não é apenas um técnico excepcional; ele é um narrador, um orador musical.
Sua abordagem das sonatas de Corelli é um exemplo perfeito de como o conhecimento histórico pode ser colocado a serviço de uma expressão intensamente viva e comunicativa. Em suas mãos (e nas de seu parceiro ao cravo e órgão, Richard Egarr), cada movimento ganha um caráter claro:
- Os movimentos lentos cantam com uma eloquência comovente, onde os ornamentos não são meros enfeites, mas sim lágrimas ou suspiros integrados à linha melódica.
- Os movimentos rápidos dançam com um ritmo incisivo e um brilho que vem da articulação precisa, e não apenas da velocidade.
- A sensação de diálogo entre as vozes do violino e do baixo contínuo é constante, tornando a música verdadeiramente camerística.
Manze domina a arte da affekt – a doutrina dos afetos barroca –, transmitindo claramente estados de alma como a dor, a alegria, a serenidade ou a bravura. Sua gravação é uma aula de como a fidelidade ao estilo pode resultar na mais pura e envolvente liberdade expressiva.
Um Legado que Ressoa no Presente
O trabalho de intérpretes como Andrew Manze fez mais do que resgatar sonatas específicas; ele redefiniu nossa relação com todo um universo musical. Ouvir suas gravações das Sonatas Op. 5 de Corelli é perceber que esta música nunca foi um mero exercício ou um degrau para algo maior. Ela é, em si mesma, um mundo completo de invenção melódica, equilíbrio formal e profunda expressão emocional.
Essa gravação é um testemunho poderoso de que, na música, olhar para o passado com as ferramentas certas não é um ato de arqueologia, mas sim de redescoberta vital. É um convite para ouvirmos Corelli – e todo o barroco – com novos ouvidos, apreciando sua beleza intrínseca e sua poderosa capacidade de falar diretamente ao coração, séculos depois de ter sido escrita.