jun 12, 2026
Benjamin Bernheim reina soberano no “Hoffmann” do Met
Em uma noite de outubro no Lincoln Center, o Metropolitan Opera de Nova York recebeu uma produção de Os Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, que reafirmou o poder e a complexidade desta obra-prima. Mais do que isso, a apresentação serviu como um palco perfeito para o tenor francês Benjamin Bernheim brilhar, entregando uma performance que, segundo a crítica especializada, o coloca como a voz reinante da noite.
A Natureza Sombria de uma Obra-Prima Cintilante
À primeira vista, Os Contos de Hoffmann pode enganar o ouvinte desatento. A música de Offenbach é, como sempre, espirituosa, cheia de vida e de uma energia contagiante. Desde o Prólogo, quando somos apresentados ao estudante Hoffmann e seus colegas em uma taverna, a partitura dança com uma alegria superficial. No entanto, essa superfície brilhante esconde um coração sombrio e perturbador.
A obra é, em sua essência, uma exploração do lado obscuro do amor e da arte. Hoffmann, o poeta romântico, é assombrado por uma figura maligna que assume diferentes formas ao longo da história, sempre com o objetivo de arruinar seus romances. Essa figura, que pode ser interpretada como o Diabo, o destino ou a própria sombra do artista, é a força motriz por trás da tragédia que se desenrola em cada um dos três atos.
É essa dualidade que torna a ópera tão fascinante. De um lado, temos a beleza melódica e a sátira social típicas de Offenbach. Do outro, uma profundidade psicológica e um pessimismo que beiram o gótico. O diretor da produção do Met, Bartlett Sher, soube equilibrar esses extremos com maestria, criando um espetáculo visualmente deslumbrante que não perde de vista a escuridão da narrativa.
Benjamin Bernheim: O Poeta em seu Elemento
No centro de toda essa complexidade está o papel-título, Hoffmann. É um dos papéis mais exigentes do repertório tenoril, exigindo não apenas um alcance vocal poderoso e flexível, mas também uma presença de palco carismática e a capacidade de transmitir a vulnerabilidade de um poeta que é, repetidamente, traído pelo amor.
Benjamin Bernheim não apenas atendeu a esses requisitos; ele os superou. Sua atuação foi aclamada como a âncora da noite. Sua voz, descrita como lírica e expressiva, navegou pelas árias mais famosas com uma facilidade impressionante, ao mesmo tempo em que infundiu cada frase com a angústia e a paixão do personagem. Não se tratava apenas de cantar as notas corretas; era uma entrega completa à alma do poeta.
A crítica destacou como Bernheim “reinou” sobre a produção. Ele não era apenas um tenor no palco; ele era o coração pulsante da tragédia, o fio condutor que unia as três histórias de amor fracassado. Sua química com as três heroínas (Olympia, Antonia e Giulietta) e sua luta contra o vilão múltiplo (Lindorf, Coppélius, Dr. Miracle e Dappertutto) foram o motor dramático da noite.
Um Elenco de Apoio e a Força da Música
Embora Bernheim tenha sido o centro das atenções, uma ópera desse porte não se sustenta sem um elenco de apoio de primeira linha. A produção do Met contou com vozes notáveis para os papéis femininos e para o vilão. A soprano que interpretou Olympia, a boneca mecânica, encantou com sua coloratura precisa e sua atuação mecânica e cômica. Já a soprano no papel de Antonia, a frágil cantora, trouxe uma profundidade emocional comovente, especialmente em seu dueto com Hoffmann.
O baixo-barítono responsável pelos quatro vilões merece menção especial. A capacidade de transformar o personagem maligno em cada ato, mantendo uma ameaça subjacente, é um feito teatral e vocal. Sua presença era uma sombra constante, lembrando ao público que, por mais bela que a música fosse, a tragédia estava sempre à espreita.
A Orquestra do Met, sob a batuta do maestro, capturou perfeitamente a essência da partitura de Offenbach. Desde a abertura vibrante até o final melancólico, a orquestra foi um personagem por si só, alternando entre a leveza da valsa e a escuridão dos temas do vilão com precisão e paixão.
O Legado de uma Noite Inesquecível
A produção de Os Contos de Hoffmann no Metropolitan Opera não foi apenas mais uma noite de ópera. Foi a afirmação de que esta obra, muitas vezes mal compreendida como uma simples comédia musical, é na verdade um dos estudos mais profundos sobre a alma do artista e a natureza efêmera do amor.
E, no centro dessa afirmação, estava Benjamin Bernheim. Sua performance não foi apenas um triunfo pessoal, mas uma demonstração de como um grande artista pode elevar uma obra já grandiosa. Ele nos lembrou que Hoffmann não é apenas um personagem de uma ópera; ele é um arquétipo do poeta romântico, um sonhador condenado a transformar sua dor em arte.
Para os amantes da ópera que estavam presentes naquela noite de outubro, a experiência foi um lembrete do poder transformador do teatro musical. E para aqueles que ainda não tiveram a chance de ver Bernheim no papel, a mensagem é clara: esta é uma atuação que define uma era, uma interpretação de Hoffmann que será lembrada por muito tempo como uma das grandes da história recente do Met.
Em um mundo que muitas vezes valoriza o espetáculo vazio, a noite de Bernheim no Met foi um triunfo da arte genuína, da emoção crua e da beleza musical. Uma verdadeira celebração do que a ópera pode alcançar quando talento e paixão se encontram no mesmo palco.