ago 12, 2026
Benjamin Bernheim Domina como Hoffmann na Nova Produção do Met
A nova produção de Os Contos de Hoffmann (Les Contes d’Hoffmann) no Metropolitan Opera House, em Nova York, estreou em 24 de outubro de 2024, e já se tornou um dos assuntos mais comentados da temporada. A montagem, assinada pelo diretor Bartlett Sher, trouxe uma leitura visualmente deslumbrante, mas foi o tenor Benjamin Bernheim quem roubou a cena, entregando uma performance que será lembrada por muito tempo.
Mas antes de falarmos sobre o brilho de Bernheim, é preciso entender o que torna esta ópera de Offenbach uma obra tão peculiar e fascinante. Afinal, não é todo dia que uma peça musical consegue ser, ao mesmo tempo, tão leve e tão sombria.
A Dualidade de uma Obra-Prima
Os Contos de Hoffmann é, na essência, uma obra cruel. Apesar da música cintilante e cheia de wit que Offenbach compôs, há uma camada de maldade que permeia toda a narrativa. Desde o Prólogo, quando estamos no meio dos estudantes bêbados e barulhentos que acompanham Hoffmann, já existe uma figura maligna à espreita, pronta para destruir o poeta. Essa tensão constante entre a alegria superficial e a tragédia iminente é o que dá à ópera sua força dramática.
Hoffmann é um personagem complexo. Ele é um poeta romântico, apaixonado e idealista, mas também é um homem condenado a ver seus amores ruírem. A estrutura da ópera é engenhosa: em três atos distintos, vemos Hoffmann se apaixonar por três mulheres diferentes — Olympia, Antonia e Giulietta — e, em cada uma dessas histórias, o mesmo vilão (que assume diferentes formas) conspira para destruir sua felicidade. É uma alegoria sobre a natureza do amor e da criação artística, e sobre como o próprio ato de amar pode ser uma forma de auto-destruição.
O que torna a obra tão fascinante é que Offenbach, conhecido por suas operetas leves e satíricas, compôs uma partitura que é ao mesmo tempo deliciosamente melódica e profundamente perturbadora. A música nunca deixa de ser bela, mas há sempre uma sombra pairando sobre ela. Essa dualidade é um dos grandes desafios para qualquer intérprete.
A Performance de Benjamin Bernheim
É nesse contexto que entra Benjamin Bernheim. O tenor francês, que já é considerado um dos maiores talentos líricos de sua geração, conseguiu capturar perfeitamente essa dualidade. Seu Hoffmann é ao mesmo tempo carismático e vulnerável, um poeta que vive intensamente suas paixões, mas que também carrega o peso de suas tragédias.
O que mais impressiona na performance de Bernheim é a sua versatilidade vocal. Ele transita com facilidade entre os momentos mais líricos e apaixonados, onde sua voz aquece e envolve o ouvinte, e os momentos mais dramáticos, onde ele investe com agressividade e intensidade. Seu canto é sempre refinado, com um fraseado inteligente que dá vida ao texto de uma forma que poucos conseguem.
Além disso, Bernheim tem uma presença de palco magnética. Ele não apenas canta o papel; ele o vive. Em cada ato, ele nos mostra um Hoffmann diferente — o sonhador apaixonado por Olympia, o amante atormentado por Antonia, o sedutor desiludido por Giulietta — mas todos eles são ligados por um fio condutor de melancolia que torna o personagem coeso e profundamente humano.
Uma Estreia para Ficar na História
A nova produção de Bartlett Sher também merece destaque. O diretor criou um espetáculo visualmente impressionante, que mistura elementos de teatro de revista parisiense com uma estética mais sombria e expressionista. Os cenários e figurinos são ricos em detalhes, e a iluminação ajuda a criar a atmosfera onírica e perturbadora que a obra exige.
O Met, como sempre, entregou uma montagem de altíssimo nível. A orquestra, regida por um maestro que entende profundamente a partitura de Offenbach, encontrou o equilíbrio perfeito entre o brilho orquestral e a delicadeza dos momentos mais intimistas. O coro, como é tradição na casa, esteve impecável.
Mas, no final das contas, é a performance de Bernheim que fica na memória. Numa noite em que tudo funcionou, ele elevou o espetáculo a um patamar ainda mais alto, entregando uma interpretação que já pode ser considerada uma das grandes referências do papel.
Por Que Você Deve Assistir
Se você é um amante de ópera, Os Contos de Hoffmann é uma obra obrigatória. É uma das poucas óperas do repertório francês que consegue ser ao mesmo tempo popular e sofisticada, acessível e profunda. E se você tiver a oportunidade de ver esta produção do Met, com Benjamin Bernheim no papel principal, não pense duas vezes.
É raro ver um cantor tão completo, que domina técnica, interpretação e presença de palco com tamanha naturalidade. Bernheim não está apenas cantando Hoffmann; ele está nos mostrando a alma do poeta, com todas as suas contradições e fragilidades. É um espetáculo que nos lembra por que a ópera continua sendo uma das formas de arte mais poderosas e emocionantes que existem.
Em uma temporada cheia de grandes produções, esta estreia se destaca como um dos momentos mais altos. Se você não puder ir a Nova York, vale a pena ficar de olho nas transmissões ao vivo do Met, que levam essa experiência para cinemas de todo o mundo. É uma oportunidade única de testemunhar um grande artista no auge de suas capacidades, em uma obra que parece ter sido escrita exatamente para ele.