ago 21, 2026
Elim Chan conduz a New York Philharmonic em programa com Koide, Saint-Saëns e Prokofiev
No dia 27 de maio de 2026, o David Geffen Hall, no Lincoln Center de Nova York, recebeu um concerto que parecia carregado de mais do que apenas música: havia a sensação de um momento simbólico, de uma passagem que se anuncia com clareza. A regente convidada Elim Chan, recém-nomeada diretora musical da San Francisco Symphony, assumiu o pódio à frente da New York Philharmonic para um programa que reunia Koide, Saint-Saëns e Prokofiev. Foi uma noite em que o repertório, a escolha artística e o gesto de regência se encontraram em uma mesma direção.
Uma regente que chega com peso simbólico
A presença de Elim Chan no pódio da New York Philharmonic ganha contornos especiais pela sua trajetória recente. A nomeação como diretora musical da San Francisco Symphony a coloca em uma posição histórica, frequentemente descrita como a de primeira mulher a liderar uma orquestra considerada de grande porte nos Estados Unidos. Ainda assim, essa afirmação pede cuidado. Nomes como Marin Alsop e JoAnn Falletta já construíram carreiras de enorme relevância em posições de liderança orquestral, e o próprio debate sobre o que define uma orquestra “major” continua aberto.
O que importa, no entanto, é o efeito prático dessa visibilidade. Quando uma regente ocupa esse tipo de função, ela não apenas assume uma regência: ela também amplia o imaginário do que é possível dentro da música clássica contemporânea. E foi com essa força que Chan entrou em cena. De estatura discreta, ela caminhou até o pódio com uma postura que não precisava de grandiloquência para se impor. Havia determinação, economia de gesto e uma atenção constante ao conjunto.
O programa: três sensibilidades em diálogo
Um dos pontos mais interessantes da noite foi a montagem do programa. Ao reunir Koide, Saint-Saëns e Prokofiev, a regente propôs uma escuta que atravessa diferentes sensibilidades, épocas e linguagens orquestrais. Essa escolha evita o conforto de um concerto “de catálogo” e convida a plateia a se deixar surpreender por contrastes.
Koide: uma abertura que prepara o ouvido
A presença de Koide no repertório chama atenção pela própria intenção de ampliar o horizonte sonoro. Em concertos de grandes orquestras, nomes menos imediatamente associados ao repertório central ganham uma força particular. Eles pedem atenção, despertam curiosidade e funcionam como um convite para ouvir com menos pressa. Nesse sentido, a obra de Koide ajudou a estabelecer um clima de reflexividade, preparando o ouvido para os contrastes que viriam.
Saint-Saëns: brilho, cor e elegância
Já Saint-Saëns traz consigo aquela combinação que sempre funciona: brilho orquestral, elegância formal e uma capacidade rara de transformar a música em algo ao mesmo tempo refinado e acessível. É um compositor que lembra o quanto o repertório francês do século XIX sabe equilibrar invenção melódica, colorido e clareza estrutural. Na interpretação de Chan, esse trecho do programa parecia buscar exatamente isso: uma sonoridade limpa, com definição nos planos sonoros e sem excessos.
Prokofiev: tensão, modernidade e impacto
Se Saint-Saëns oferece elegância, Prokofiev traz outra energia. Há em sua música uma tensão que não se entrega de imediato, um lado mais incisivo, às vezes irônico, às vezes dramático. É também um compositor que testa a orquestra em todos os sentidos: precisão, coragem dinâmica e capacidade de sustentar grandes arcos dramáticos. A escolha de Prokofiev no final do programa reforçou a ideia de um concerto pensado para terminar com impacto, deixando a plateia com a sensação de que havia ainda muito a digestar.
A regência de Elim Chan: clareza antes de espetáculo
Uma das qualidades mais marcantes da condução de Elim Chan foi a clareza. Em vez de buscar efeitos gratuitos ou gestos excessivos, ela pareceu trabalhar com uma lógica de escuta. Isso é fundamental em um programa como esse, em que os contrastes são tão importantes quanto a unidade. A regente sabia quando abrir passagens, quando controlar a intensidade e quando deixar a própria música falar.
Esse tipo de abordagem é especialmente relevante em concertos com obras de diferentes épocas e sensibilidades. Não se trata apenas de “tocar bem” cada peça, mas de construir um percurso. E foi exatamente isso que a noite sugeria: um programa que não se limitava a somar obras, mas que as colocava em relação entre si. Havia continuidade no gesto, coerência na intenção artística e um senso claro de direção.
Por que esse concerto importa
Concertos como esse ganham importância também porque mostram o quanto a música sinfônica pode ser um espaço de renovação. A escolha de repertório, a presença de uma regente em ascensão e a forma como a New York Philharmonic respondeu ao pódio criaram uma experiência que vai além do habitual. Não foi apenas uma apresentação de obras de Koide, Saint-Saëns e Prokofiev; foi um gesto artístico com identidade.
No fundo, o que fica da noite é a ideia de que grandes orquestras também se renovam pela forma como escolhem seu presente. Quando uma regente como Elim Chan assume o comando de um programa assim, ela não apenas interpreta: ela também reafirma o papel da música clássica como campo vivo, em constante construção. E é exatamente isso que torna uma noite como essa memorável.
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