Benjamin Bernheim domina a cena como Hoffmann na Metropolitan Opera

Benjamin Bernheim domina a cena como Hoffmann na Metropolitan Opera

Quando se pensa em Jacques Offenbach, a primeira imagem que costuma vir à mente é a da farsa: orquestras ágeis, […]

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ago 29, 2026

Benjamin Bernheim domina a cena como Hoffmann na Metropolitan Opera

Quando se pensa em Jacques Offenbach, a primeira imagem que costuma vir à mente é a da farsa: orquestras ágeis, melismas brilhantes, humor afiado e um teatro que parece feito para divertir. Porém, Tales of Hoffmann — ou Les contes d’Hoffmann — é uma obra que esconde, sob essa superfície elegante, uma tensão mais profunda. É um trabalho incômodo, às vezes até assombrado, no qual a música pode ser deslumbrante, mas o personagem central está sempre cercado por uma ameaça. Foi nesse terreno complexo que Benjamin Bernheim se apresentou como Hoffmann na Metropolitan Opera, em 24 de outubro de 2024, no Metropolitan Opera House, em Lincoln Center, Nova York.

Uma ópera que não é tão leve quanto parece

Uma das grandes qualidades de Tales of Hoffmann é a maneira como Offenbach constrói um mundo em que a fantasia e a paranoia caminham lado a lado. O protagonista é um poeta romântico, apaixonado, instável e profundamente vulnerável. Ao mesmo tempo em que ele se entrega a desejos intensos — representados pelas três musas da ópera, Olympia, Giulietta e Antonia —, ele também é perseguido por uma figura sombria que ameaça destruir sua obra e, possivelmente, sua vida.

Esse aspecto não aparece apenas nos atos principais. Ele já está presente desde o Prologo, quando Hoffmann está com seus colegas de estudo. Mesmo nesse momento aparentemente mais cotidiano, uma presença maligna se insinua, criando uma sensação constante de vigilância. É como se a obra inteira fosse habitada por um mal que não precisa aparecer o tempo todo para ser sentido. Ele basta existir no fundo, como uma sombra que atravessa a cena.

O Hoffmann de Benjamin Bernheim

Nesse contexto, a interpretação de Benjamin Bernheim ganha uma dimensão especialmente importante. O personagem exige muito mais do que uma bela voz. Exige presença, sensibilidade dramática e uma capacidade de alternar entre fragilidade, ironia, paixão e desespero. Hoffmann é, ao mesmo tempo, um poeta brilhante e um homem à beira do colapso, alguém que cria mundos extraordinários, mas que também é incapaz de escapar deles por completo.

Bernheim constrói essa figura com autoridade. Há nele uma dicção clara, um fraseado que respira e uma consciência cênica que ajuda o público a compreender não apenas o que Hoffmann canta, mas o que ele sente. A voz traz potência nos momentos de maior intensidade, mas também delicadeza nas cenas mais introspectivas. É justamente essa amplitude que permite ao barítono transformar o personagem em um indivíduo verdadeiramente humano, e não apenas um veículo para árias vistosas.

Voz, personagem e presença

  • Potência vocal: em momentos de desespero e confronto, Bernheim sustenta a linha melódica com segurança e impacto.
  • Controle cênico: a atuação ajuda a dar substância a um papel que poderia cair em gestos excessivos ou em uma caricatura do poeta romântico.
  • Sensibilidade estética: o intérprete parece compreender a relação entre a música de Offenbach e a psicologia do personagem.
  • Autoridade dramática: mesmo quando Hoffmann é vulnerável, não se perde em autopiedade; há dignidade na sua tragédia.

Esse equilíbrio é essencial. Se Hoffmann fosse apenas um homem desesperado, a ópera perderia parte de sua elegância. Se fosse apenas um poeta romântico, perderia a carga de ameaça que a estrutura da obra impõe. O mais interessante é ver a figura oscilar entre esses polos, sem jamais se reduzir a um único aspecto.

A ameaça que atravessa a obra

Um dos elementos mais marcantes de Tales of Hoffmann é a figura do Coppelius, também associado ao personagem do Miracle, conforme a tradição interpretativa da obra. Essa presença funciona como uma espécie de espelho negativo de Hoffmann: onde o poeta busca criação, beleza e expressão, a figura sombria representa destruição, repetição e violência. É ela que transforma a farsa em algo mais sombrio, mais próximo do pesadelo.

No Prologo, essa ameaça já se anuncia com clareza. Mesmo entre os estudantes, mesmo na superfície da vida acadêmica, há uma interrupção do normal. A música pode ser espirituosa, mas o clima não se dissolve. E isso se repete ao longo dos atos, reforçando a ideia de que Hoffmann vive cercado por forças que ele não consegue dominar. Essa é uma das razões pelas quais a obra nunca é apenas um espetáculo de superfície: ela exige que o intérprete entenda a tensão interna do personagem.

Por que essa leitura importa

Em produções de ópera, é comum que o público se concentre apenas na execução vocal ou apenas na encenação. Mas o que torna uma interpretação memorável é a capacidade de unir esses elementos em uma leitura coerente. No caso de Bernheim como Hoffmann, o que se percebe é uma visão de conjunto: a voz não está desconectada da cena, e a cena não sobrepõe a música. Há uma integração que ajuda a sustentar a obra do início ao fim.

Isso é particularmente relevante em uma obra como Tales of Hoffmann, que pode ser tratada de maneira ligeira se o elenco não compreender sua densidade. A farsa de Offenbach é real, o humor é real, a virtuosidade é real. Mas também existe o medo, a obsessão e a sensação de que não há saída possível. Quando o intérprete assume essa complexidade, a ópera ganha outra dimensão.

Na Metropolitan Opera, o encontro entre a tradição da casa e uma interpretação tão firme quanto sensível cria uma experiência especialmente rica. O público não apenas ouve árias célebres; assiste a um personagem tentando sobreviver a si mesmo, à própria arte e às forças que ameaçam destruí-lo. É nesse ponto que a apresentação ganha seu maior valor: transforma uma obra já notável em uma experiência dramática completa.

Em última análise, o Hoffmann de Benjamin Bernheim funciona porque não tenta simplificar o personagem. Ele aceita a contradição, a dor e a grandiosidade que a partitura pede. E, ao fazê-lo, revela por que Tales of Hoffmann continua sendo uma das obras mais fascinantes do repertório operático: porque, sob a elegância de Offenbach, há sempre algo mais profundo — e mais inquietante — esperando ser revelado.

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