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jul 3, 2026
A Paixão e a Tragédia de Verona: Crítica da Nova Temporada de Roméo et Juliette no Met
O Metropolitan Opera House, em Nova York, voltou a encher seus imponentes lustres de luz e som para receber uma das obras mais queridas do repertório lírico mundial: Roméo et Juliette, de Charles Gounod. A revival da produção de Bartlett Sher, originalmente concebida em 1967, chegou aos palcos do Lincoln Center em 19 de março de 2024, logo após a estreia da nova montagem de La forza del destino. E, para alegria dos frequentadores e crítica, o Met parece ter acertado em cheio com duas produções de peso simultaneamente.
Um Elenco que Brilha e Comove
O grande trunfo desta revival é, sem dúvida, o elenco. Em uma obra onde a química entre os protagonistas é a alma do espetáculo, a produção acertou em cheio ao escalar dois artistas que não apenas possuem vozes tecnicamente impecáveis, mas que também constroem uma narrativa de amor tão genuína quanto trágica.
O papel de Roméo é entregue a um tenor que combina a doçura necessária para os momentos de paixão com o vigor heroico exigido pelas cenas de conflito. Sua interpretação do famoso dueto “Ah! lève-toi, soleil!” é de uma beleza que paralisa a plateia, transformando a ária em um verdadeiro hino ao desejo e à juventude. Do outro lado, a Juliette da produção é uma soprano de agudos cristalinos e um fraseado que extrai toda a inocência e a coragem da personagem. Juntos, eles criam momentos de pura magia, onde a música de Gounod ganha uma dimensão quase cinematográfica.
A Direção de Bartlett Sher: Um Clássico que se Renova
Embora a produção de Bartlett Sher date de 1967, a direção de palco consegue manter uma frescura que a impede de soar datada. Sher não busca revolucionar a narrativa ou impor leituras contemporâneas forçadas. Em vez disso, ele se concentra no que há de mais universal na história de Shakespeare: o amor proibido, a rivalidade familiar e o destino implacável.
A cenografia, embora tradicional, é funcional e bela. Os cenários de Verona são evocativos sem serem literais, permitindo que a imaginação do espectador complete os quadros. A iluminação, por sua vez, é um personagem à parte, pintando as cenas de amor com tons quentes e dourados, enquanto as cenas de conflito são banhadas por sombras e contrastes. O resultado é uma experiência visual que complementa perfeitamente a partitura, sem jamais roubar a cena.
A Música de Gounod: Entre o Lírico e o Dramático
A orquestra do Met, sob a batuta de um maestro de mão firme, entrega uma leitura que respeita as tradições da ópera francesa, mas sem soar acadêmica. Gounod é um mestre da melodia, e sua partitura para Roméo et Juliette é um desfile interminável de temas memoráveis. Desde a alegre e contagiante “Valse de Juliette” até o pungente dueto final na cripta, a música conduz a narrativa com uma fluidez impressionante.
O coro, um dos pilares do Met, também merece destaque. As cenas de bailes e de confrontos entre os Capuleto e os Montecchio são vibrantes e cheias de energia, criando um contraste sonoro poderoso com os momentos de intimidade dos protagonistas. A famosa cena do balcão, um dos pontos altos da ópera, é tratada com uma delicadeza que faz o público prender a respiração.
Um Sucesso em Meio a Desafios
É interessante notar que o Met escolheu reviver esta produção logo após a estreia de La forza del destino, uma obra conhecida por seus desafios estruturais e mudanças de cenário. Enquanto “Forza” é considerada por muitos uma obra problemática, Roméo et Juliette é uma aposta mais segura e, ao que tudo indica, igualmente bem-sucedida. A combinação de um elenco estelar com uma produção clássica e bem cuidada parece ser a fórmula ideal para atrair tanto os assinantes de longa data quanto uma nova geração de amantes da ópera.
Para quem busca uma noite de teatro musical de altíssimo nível, onde a emoção e a técnica andam de mãos dadas, esta revival do Met é uma oportunidade imperdível. A produção prova que, mesmo após décadas, uma boa história e uma música sublime nunca perdem o seu poder de encantar.
Conclusão: Uma Noite para Recordar
A revival de Roméo et Juliette no Metropolitan Opera é um daqueles eventos que reafirmam a vitalidade da ópera no século XXI. Com um elenco ideal, uma direção respeitosa e uma orquestra em estado de graça, a produção consegue extrair toda a beleza e a tragédia da obra-prima de Gounod. É uma celebração do amor, da música e do teatro, que certamente ficará na memória de todos os que tiverem a sorte de presenciá-la. O Met, mais uma vez, demonstra porque continua sendo uma das casas de ópera mais importantes do mundo, equilibrando tradição e excelência com maestria.