out 12, 2026
Benjamin Bernheim brilha como Hoffmann na ópera de Offenbach no Metropolitan Opera
Benjamin Bernheim Rules as Met’s Hoffmann poderia ser traduzido como “Benjamin Bernheim domina o papel de Hoffmann no Met”. A frase resume bem a impressão deixada pelo tenor francês na apresentação de Os Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, realizada em 24 de outubro de 2024 no Metropolitan Opera House, no Lincoln Center, em Nova York.
A ópera de Offenbach costuma ser lembrada por sua música brilhante, espirituosa e envolvente. No entanto, por trás das melodias sedutoras e dos momentos de humor, existe uma obra profundamente inquietante. Desde o Prólogo, quando Hoffmann aparece entre seus colegas estudantes, uma atmosfera de ameaça começa a se formar. Há sempre a sensação de que uma força maligna se aproxima, pronta para interferir na vida do poeta e destruir suas esperanças.
Uma obra entre o encantamento e o perigo
Os Contos de Hoffmann ocupa um lugar particular no repertório operístico. A obra combina fantasia, romance, sátira e elementos sobrenaturais, criando um universo em que a realidade e a imaginação se confundem. Hoffmann não é apenas um personagem que conta histórias: ele é também alguém perseguido por suas próprias paixões, frustrações e ilusões.
O ambiente musical criado por Offenbach reforça essa dualidade. A partitura alterna trechos de grande leveza com passagens sombrias e ameaçadoras. Uma ária pode soar luminosa e imediatamente dar lugar a uma situação de perigo. O público é conduzido por uma narrativa que encanta, mas que nunca permite total conforto.
Essa instabilidade é essencial para compreender o protagonista. Hoffmann deseja amar, criar e ser reconhecido, mas encontra repetidamente obstáculos que parecem ultrapassar a simples oposição humana. O mal surge em diferentes formas e se aproxima dele com insistência, como se cada nova história fosse também uma tentativa de compreender o próprio fracasso.
Benjamin Bernheim no centro da narrativa
Na apresentação do Metropolitan Opera, Benjamin Bernheim assumiu o papel-título e colocou sua presença vocal e dramática no centro da produção. Interpretar Hoffmann exige muito mais do que cantar notas difíceis. O personagem atravessa diferentes estados emocionais, passando da alegria juvenil à embriaguez, do entusiasmo amoroso ao desespero, e da autoconfiança à completa vulnerabilidade.
Bernheim se destaca justamente por lidar com essas mudanças sem reduzir Hoffmann a um herói romântico convencional. Seu personagem é contraditório: pode ser espirituoso e impulsivo, mas também inseguro e autodestrutivo. Em alguns momentos, parece controlar a narrativa; em outros, é claramente arrastado por acontecimentos que não consegue dominar.
Essa complexidade torna o papel particularmente exigente para qualquer tenor. O intérprete precisa sustentar longos trechos musicais, enfrentar uma escrita vocal de grande intensidade e, ao mesmo tempo, preservar a clareza das palavras e a força teatral. Hoffmann não pode ser apresentado apenas como uma voz bonita. Ele precisa parecer um homem em luta contra suas memórias, seus desejos e as figuras que o perseguem.
O mal como personagem recorrente
Um dos aspectos mais perturbadores da ópera é a presença recorrente de uma figura maligna que tenta prejudicar Hoffmann. Essa força reaparece ao longo da obra, assumindo diferentes papéis e interferindo nas histórias de amor do protagonista. A repetição não é apenas um recurso de enredo: ela dá à ópera uma estrutura quase onírica, como se Hoffmann estivesse condenado a reencontrar o mesmo inimigo sob novas aparências.
O efeito é especialmente forte porque Offenbach não abandona completamente o humor. A música pode ser mordaz, elegante e até divertida, enquanto a situação apresentada permanece cruel. Esse contraste cria uma espécie de ironia amarga. O público ri ou se encanta, mas percebe que há algo profundamente errado por trás do espetáculo.
O poder teatral da música de Offenbach
Embora Offenbach seja frequentemente associado à opereta e à comédia, Os Contos de Hoffmann revela uma ambição dramática muito mais ampla. A obra reúne números de grande virtuosismo, cenas de conjunto, momentos íntimos e passagens de intenso suspense. Sua variedade musical permite que cada episódio tenha uma identidade própria, sem perder a unidade da narrativa.
O resultado é uma experiência teatral que depende tanto da música quanto da atmosfera. O sucesso da obra está em fazer com que o público transite rapidamente entre mundos diferentes: a taberna, o sonho, a paixão, a ilusão e o pesadelo. No centro de tudo está Hoffmann, tentando transformar suas experiências em arte enquanto é consumido por elas.
Uma apresentação marcada pela intensidade
A atuação de Benjamin Bernheim reforça a importância de um protagonista capaz de unir técnica, inteligência musical e presença cênica. Ao assumir Hoffmann, o tenor não interpreta apenas as histórias do poeta; ele também dá forma à sua solidão e ao seu desejo de encontrar sentido em meio ao caos.
A apresentação de 24 de outubro no Metropolitan Opera evidenciou por que essa obra continua tão poderosa. Os Contos de Hoffmann pode oferecer melodias cintilantes e momentos de humor, mas sua essência é muito mais sombria. É uma ópera sobre a fragilidade humana, sobre o perigo de idealizar o amor e sobre a maneira como a imaginação pode ser, ao mesmo tempo, refúgio e armadilha.
No papel principal, Bernheim encontrou o equilíbrio necessário entre o poeta, o amante e o homem perseguido. Sua presença ajudou a manter a narrativa unida e deu ao público uma visão convincente de Hoffmann como personagem trágico. Ao final, permanece a sensação de que a beleza da obra nunca está separada do perigo: quanto mais sedutora é a música, mais próxima parece estar a ameaça que acompanha o protagonista.
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