ago 16, 2026
Benjamin Bernheim Brilha como Hoffmann no Metropolitan Opera em Os Contos de Hoffmann
Existe um tipo de ópera que não pede permissão para entrar na plateia: ela avança, inquieta, insiste. Os Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, é exatamente assim. Mesmo quando a música parece leve, espirituosa e cheia de brilho, há sempre algo que perturba. É uma obra que ri, seduz e ameaça ao mesmo tempo. No Metropolitan Opera, em Lincoln Center, no dia 24 de outubro de 2024, Benjamin Bernheim assumiu o papel-título com uma presença que transformou essa tensão em algo quase palpável.
Uma ópera incômoda, mas irresistível
É difícil subestimar o que Offenbach constrói em Os Contos de Hoffmann. A superfície pode sugerir um teatro caprichoso, quase fantasmagórico, com cenas de salão, figuras mágicas, invenções extraordinárias e um protagonista que vive alternando entre o sonho e a dor. Mas, por baixo dessa elegância, existe um nervo muito mais duro: Hoffmann é um homem que sofre, que se recusa a aceitar o impossível e que, ao mesmo tempo, não consegue escapar dele.
A obra já começa com essa ambiguidade. Ainda no prólogo, quando o compositor está entre os estudantes, a música tem graça, movimento e até certa camaradagem. Mas não demora para que surja a figura sombria que ronda o protagonista. É um mal que não se apresenta de maneira direta; ele se infiltra. Essa é uma das grandes forças da ópera: o perigo nunca é apenas externo. Ele mora na imaginação, na memória e no desejo.
Bernheim e a força dramática de Hoffmann
Benjamin Bernheim trouxe para o palco uma leitura de Hoffmann que une intensidade emocional e clareza dramática. O personagem não se mostra apenas como um tenor bonito ou como uma voz que brilha nos momentos mais ágeis. Ele se revela como alguém dividido: capaz de ironia, de vulnerabilidade, de arrogância e, sobretudo, de uma teimosia quase trágica. Isso dá ao papel uma dimensão muito maior do que a que a partitura, à primeira vista, parece exigir.
Um dos grandes desafios de Hoffmann é justamente o controle. O personagem precisa ser convincente em situações muito diferentes: conversa entre amigos, embriaguez, paixão, terror, desilusão e quase delírio. Bernheim demonstrou saber mudar de registro sem perder coerência. Há momentos em que ele soa mais próximo do espectador, como se estivesse confidenciando uma ferida. Há outros em que a voz se amplia, quase como um grito de defesa contra tudo aquilo que ameaça destruí-lo.
A música de Offenbach como motor psicológico
Se a interpretação de Bernheim se destacou, isso também se deve ao fato de que Offenbach escreve uma partitura que não permite distração. A música é rápida, cheia de recursos, com orquestra que acompanha cada mudança de humor. O compositor sabe usar o sorriso como armadilha e o capricho como forma de medo. Por isso, Hoffmann não pode ser interpretado apenas com lirismo. É preciso perceber onde a partitura racha, onde a ironia se torna dor e onde a elegância vira desespero.
É nesse terreno que Bernheim se moveu com segurança. Ele não se deixou engolir pela virtuosidade da partitura, nem transformou o personagem em mero mostruário vocal. Pelo contrário, deu a Hoffmann uma identidade. Isso é essencial, porque a ópera funciona melhor quando o protagonista parece ter uma vida fora do palco, quando suas escolhas fazem sentido e quando o público entende por que ele continua se entregando a mulheres que talvez sejam apenas aparências de um pesadelo.
O mal que ronda Hoffmann
O que torna Os Contos de Hoffmann tão perturbador é a sensação de que o verdadeiro inimigo pode estar em todo lugar. A figura sombria que assombra o protagonista não é apenas um obstáculo externo; ela representa o que Hoffmann não consegue superar: a desilusão, a obsessão, a dúvida e o próprio poder destrutivo da imaginação. Cada cena de amor se transforma, aos poucos, em algo mais perigoso. O que parecia encantamento pode ser manipulação. O que parecia liberdade pode ser armadilha.
Isso exige do interprete um equilíbrio delicado. Bernheim conseguiu transmitir essa ambiguidade sem exageros. Hoffmann não é apenas uma vítima passiva. Ele provoca, questiona, resiste. Mas também se entrega. É nessa contradição que a personagem ganha corpo. E é exatamente aí que a ópera revela seu lado mais cruel: Hoffmann quer viver além da realidade, mas é a realidade que o destrói.
Por que essa leitura importa
Em uma ópera como essa, o papel principal não pode ser apenas bonito de ouvir. Ele precisa sustentar um teatro de nervos. Hoffmann é ao mesmo tempo poeta, sonhador, ciumento, poeta ferido, homem de ciência, amante e, em certos momentos, quase louco. Bernheim mostrou entender que o personagem precisa ser vivido com precisão, não com excesso. Essa escolha dá credibilidade à interpretação e amplia a tensão da obra.
Além disso, a apresentação no Metropolitan Opera coloca essa leitura em um contexto de grande visibilidade. Para o público da ópera, ver Hoffmann interpretado com essa carga dramática é uma oportunidade rara. Mostra que a obra pode ser tratada com seriedade sem perder o brilho. Offenbach continua sendo um compositor fascinante, mas também exige cuidado. Quando bem interpretado, seu teatro vira espelho: revela o quanto o desejo pode ser encantador e o quanto o medo pode estar escondido atrás de um sorriso.
Conclusão
Bernheim não apenas cantou Hoffmann; ele o habitou. Em uma ópera que oscila entre a graça e o terror, ele encontrou o ponto exato para tornar o personagem humano, frágil e perigoso ao mesmo tempo. Os Contos de Hoffmann é uma obra incômoda, mas é justamente esse incômodo que a torna memorável. E, nessa leitura, o Met teve a chance de apresentar um Hoffmann que não se limita a brilhar na superfície: ele deixa marcas, provoca perguntas e mostra por que, mesmo depois de tantos anos, Offenbach continua tão vivo quanto sempre.
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