Benjamin Bernheim Domina como Hoffmann no Metropolitan Opera em “Contos de Hoffmann”

Benjamin Bernheim Domina como Hoffmann no Metropolitan Opera em “Contos de Hoffmann”

1x SpeedNo dia 24 de outubro de 2024, o Metropolitan Opera House, em Lincoln Center, Nova York, recebeu uma leitura […]

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ago 18, 2026

Benjamin Bernheim Domina como Hoffmann no Metropolitan Opera em “Contos de Hoffmann”

No dia 24 de outubro de 2024, o Metropolitan Opera House, em Lincoln Center, Nova York, recebeu uma leitura de Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, que deixou claro por que a ópera continua sendo um dos grandes labirintos da cena lírica. No centro desse universo sombrio, fascinante e cheio de armadilhas psicológicas, Benjamin Bernheim assumiu o papel de Hoffmann com uma presença que não deixou margem para hesitação: ele dominou o personagem, o palco e o público.

Um conto sombrio sob a superfície lúdica

À primeira vista, Contos de Hoffmann pode parecer uma ópera de fantasia, com automatas, máscaras, poemas, vinho e uma atmosfera quase de conto de fadas. Mas, como bem lembra a tradição da obra, Offenbach construiu aqui uma peça profundamente perturbadora. Mesmo no prólogo, quando acompanhamos Hoffmann entre seus colegas estudantes, há algo de ameaçador no ar. A música é ágil, espirituosa, muitas vezes brilhante, mas existe um figura maligna rondando o protagonista, decidida a perturbar sua vida e sua arte.

Essa é a força do trabalho: o riso e o horror caminham lado a lado. Hoffmann não é apenas um poeta romântico apaixonado; ele é também um homem atormentado, dividido entre a criação e a destruição, entre o desejo e a paranoia. A ópera se desdobra em três episódios amorosos — Olympia, Antonia e a Venus de Paris — e, em cada um deles, o passado retorna como uma sombra. É nesse terreno instável que Bernheim construiu sua interpretação.

Benjamin Bernheim como Hoffmann: presença, voz e tensão dramática

O papel de Hoffmann exige mais do que uma bela voz de tenor. Exige um cantor que saiba sustentar uma narrativa fragmentada, que consiga passar do humor à melancolia e, em seguida, à ameaça, sem perder a coerência dramática. É preciso também um intérprete capaz de fazer o público acreditar que Hoffmann é ao mesmo tempo criador e vítima de seus próprios medos.

Benjamin Bernheim trouxe exatamente essa qualidade. Sua atuação foi precisa, intensa e emocionalmente convincente. Havia uma vulnerabilidade contida, mas também uma força quase magnética. Não se tratava de um Hoffmann apenas declamatório ou excessivamente teatral; ele parecia verdadeiramente habitado pelo personagem. Nas passagens mais líricas, sua linha vocal mostrou elegância e controle; nos momentos de maior tensão, a voz ganhou peso, urgência e dramaticidade.

O homem que cria e é criado pela própria obsessão

Um dos grandes méritos da interpretação de Bernheim foi a capacidade de tornar Hoffmann simultaneamente sedutor e perigoso. O poeta não aparece apenas como vítima do destino, mas também como alguém que alimenta, de certa forma, os próprios dramas. Ele escreve, sonha, ama, desconfia e projeta nos outros as próprias inseguranças. Essa ambiguidade é essencial para compreender a ópera, e Bernheim soube sustentá-la com naturalidade.

Em uma ópera que lida com máscaras, ilusões e personagens que se transformam, o intérprete precisa de uma credibilidade muito grande. Bernheim ofereceu isso. Sua Hoffmann não era uma caricatura do poeta romântico: era um homem vivo, dividido, apaixonado e assombrado. Essa dimensão humana deu profundidade ao papel e elevou toda a experiência cênica.

Offenbach e o poder da música que encanta e assusta

Jacques Offenbach é frequentemente lembrado por sua capacidade de criar música espirituosa, cheia de ironia e brilho imediato. Em Contos de Hoffmann, essa característica aparece com força especial, mas ganha outra camada. A música lúdica também pode parecer ameaçadora; a elegância pode virar inquietude; o encantamento pode se transformar em feitiçaria.

É essa dualidade que torna a obra tão interessante. A partitura convida o público a se aproximar com leveza, mas o drama o obriga a encarar temas mais sombrios: a obsessão, o ciúme, a morte, a arte e a perda. O vilão da história, com sua obsessão e seu poder sobre Hoffmann, transforma a ópera em um verdadeiro jogo de espelhos. Há algo de gótico, algo de teatral e algo profundamente psicológico em toda a construção.

Uma montagem que dialoga com a tradição e com o presente

A interpretação de Bernheim se insere em uma tradição de grandes Hoffmann na história da ópera, mas também responde a uma demanda contemporânea: a de um personagem pensado com complexidade, sem recorrer a soluções fáceis. O Metropolitan Opera, como palco, oferece naturalmente uma dimensão grandiosa, mas o que importa, em uma noite como essa, é a capacidade do intérprete de fazer o grande soar humano.

Foi isso que Bernheim fez. Ele não apenas cantou Hoffmann; ele o habitou. Sua interpretação mostrou que a ópera pode ser ao mesmovente, engraçada, cruel e profundamente humana. Em uma obra que já é, por si só, cheia de camadas, sua atuação trouxe clareza emocional e intensidade dramática.

Por que essa leitura de “Contos de Hoffmann” importa

Algumas óperas permanecem no repertório porque são belas; outras permanecem porque continuam perturbadoras. Contos de Hoffmann está entre essas duas categorias. É uma obra que encanta pela música, mas que também deixa marcas pelo drama. Quando interpretada com a intensidade de Benjamin Bernheim, ela se torna ainda mais memorável.

A performance de Bernheim como Hoffmann no Metropolitan Opera foi, portanto, mais do que um mérito vocal individual. Foi uma demonstração de como a ópera pode ganhar vida quando o intérprete compreende a psicologia do personagem e aceita seus abismos. Hoffmann não é apenas um poeta que escreve contos: ele é também o herói de um conto que se desdobra em frente ao público, cheio de máscaras, desejos e sombras.

No final, o que fica é a sensação de que se viu uma grande interpretação em uma das óperas mais difíceis e fascinantes do repertório. Benjamin Bernheim não apenas cantou o papel: ele o viveu com autoridade, sensibilidade e uma intensidade que faz de Hoffmann um personagem verdadeiramente inesquecível.

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