jun 14, 2026
Benjamin Bernheim Domina como Hoffmann no Met: Uma Noite de Ópera Inesquecível
Há algo de particularmente fascinante em uma ópera que abraça a escuridão com tanta elegância musical. No dia 24 de outubro de 2024, o Metropolitan Opera House, no Lincoln Center, foi palco de uma apresentação de Os Contos de Hoffmann, de Offenbach, que reafirmou o poder desta obra-prima sombria e cínica. E no centro de tudo, brilhando intensamente, estava o tenor francês Benjamin Bernheim.
Uma Obra Sombria Sob Luzes Cintilantes
À primeira vista, pode parecer contraditório associar a palavra “nasty” (desagradável, perversa) a uma ópera de Offenbach, conhecido por suas operetas leves e espirituosas. No entanto, Os Contos de Hoffmann é uma obra que se esconde atrás de uma fachada de música cintilante e inteligente para contar uma história profundamente perturbadora. Desde o Prólogo, quando estamos entre os colegas estudantes de Hoffmann, já sentimos a presença de uma figura maligna, um antagonista que muda de forma e está determinado a destruir o poeta. Ele não é apenas um vilão; é a personificação do azar, da inveja e da maldade que perseguem o protagonista em cada um de seus três contos de amor.
Esta dualidade é o que torna a obra tão rica e desafiadora para os intérpretes. O diretor precisa equilibrar o brilho superficial da música com a escuridão subjacente da narrativa. O cantor que interpreta Hoffmann precisa ser um romântico idealista, um poeta vulnerável e, ao mesmo tempo, um homem marcado pela tragédia.
O Reinado de Benjamin Bernheim
Benjamin Bernheim não apenas interpretou Hoffmann; ele foi Hoffmann. Sua performance foi a âncora da noite, uma demonstração de domínio vocal e teatral que elevou toda a produção. A crítica especializada, como a do site ClassicsToday, destacou que Bernheim “reina” sobre a produção, e não é difícil entender o porquê.
O papel de Hoffmann é um dos mais extenuantes do repertório tenoril. O personagem está em cena por grande parte da ópera, passando por uma gama de emoções que vão da euforia bêbada no Prólogo à paixão avassaladora, à dor da perda e, finalmente, à amarga resignação. Bernheim navegou por todas essas águas com uma voz que é ao mesmo tempo poderosa e lírica, capaz de explosões dramáticas e de pianissimos de partir o coração.
Sua “Légende de Kleinzach” no Prólogo foi um tour de force. Ele capturou perfeitamente a transição entre a canção alegre e bêbada sobre o anão e a dolorosa lembrança de sua amada perdida, mostrando um controle técnico e uma inteligência interpretativa notáveis. Em cada um dos três atos — a história de Olympia, a boneca mecânica; Antonia, a cantora frágil; e Giulietta, a cortesã veneziana — Bernheim encontrou cores vocais distintas para refletir os diferentes aspectos do amor e da perda de Hoffmann.
O Apoio do Met e a Direção Cênica
Nenhum grande tenor é uma ilha, e o sucesso da noite também se deveu à qualidade do conjunto. A produção do Met, que já é conhecida por seu visual opulento e por vezes psicodélico, criou o ambiente perfeito para o pesadelo de Hoffmann. Os cenários e figurinos, cheios de detalhes e simbolismos, ajudaram a contar a história de forma visualmente deslumbrante.
A direção de orquestra, sob a batuta de um maestro experiente, soube extrair toda a riqueza da partitura de Offenbach. A música, que transita do lirismo mais puro ao ritmo de valsa e a momentos de pura tensão dramática, foi servida com precisão e paixão. O coro do Met, como sempre, esteve impecável, adicionando camadas de textura e emoção, especialmente nas cenas de taverna e no ato veneziano.
Os outros papéis principais também merecem destaque. O vilão, que assume as formas de Lindorf, Coppélius, Dr. Miracle e Dappertutto, foi interpretado com uma presença de palco magnética e ameaçadora, criando um contraste perfeito com a vulnerabilidade de Hoffmann. As três heroínas — Olympia, Antonia e Giulietta — trouxeram cada uma sua especialidade, seja a agilidade vocal robótica de Olympia, o lirismo trágico de Antonia ou o sensualismo perigoso de Giulietta.
Por Que Esta Apresentação Foi Especial
Em um mundo onde a ópera às vezes pode parecer uma forma de arte distante ou antiquada, apresentações como esta no Met nos lembram de seu poder visceral. Os Contos de Hoffmann é uma obra sobre a natureza da arte e do amor, e sobre como o sofrimento pode ser o combustível para a criatividade. Ver Benjamin Bernheim dar vida a esse poeta atormentado com tanta verdade e talento foi uma experiência catártica.
Ele não apenas cantou as notas; ele viveu a história. Cada olhar, cada gesto, cada frase musical foi carregada de intenção. Para quem estava na plateia, foi uma noite para ser lembrada — uma daquelas raras ocasiões em que tudo se alinha perfeitamente: a obra, o intérprete, a produção e o público.
Se você tiver a oportunidade de ver Benjamin Bernheim no palco, não a desperdice. Ele é, sem dúvida, um dos grandes talentos líricos de nossa geração, e sua interpretação de Hoffmann é a prova definitiva de seu domínio da arte. O Met, mais uma vez, provou ser o lar de algumas das noites mais mágicas da ópera mundial.