maio 30, 2026
Benjamin Bernheim Reina em Nova Produção de Os Contos de Hoffmann no Met
Há algo de profundamente inquietante em Os Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach. Sob a superfície de uma partitura cintilante e espirituosa, esconde-se um veneno. Desde o Prólogo, quando estamos entre os colegas estudantes de Hoffmann, já sentimos a presença de uma figura maligna, um antagonista disposto a destruí-lo. Esta figura se metamorfoseia ao longo da ópera, mas a sua essência permanece a mesma: uma força que corrompe e destrói.
No dia 24 de outubro de 2024, o Metropolitan Opera House, em Nova York, recebeu uma nova produção desta obra-prima de Offenbach. E quem brilhou no papel título foi o tenor francês Benjamin Bernheim, em uma performance que a crítica especializada já considera uma das melhores da temporada.
Uma Nova Produção para um Clássico Sombrio
A montagem do Met, dirigida por Bartlett Sher, busca explorar as camadas psicológicas e os pesadelos do poeta Hoffmann. A produção não foge da natureza sombria da obra, mas a abraça com cenários que evocam um mundo de sonhos e delírios. A iluminação e o design de palco criam uma atmosfera que alterna entre o realismo da taberna e o surrealismo das histórias de amor e perda de Hoffmann.
O que torna esta produção particularmente eficaz é a sua capacidade de unificar os três atos – as histórias de Olympia, Antonia e Giulietta – em uma única narrativa coesa sobre a busca impossível pelo amor idealizado. Cada ato é um capítulo na queda do poeta, e a direção de Sher garante que a tragédia se construa de forma implacável.
Benjamin Bernheim: Um Hoffmann Inesquecível
Se a produção é o esqueleto, Bernheim é a alma da noite. O tenor francês, que vem construindo uma carreira sólida nos principais palcos do mundo, entrega uma performance que é ao mesmo tempo vocalmente deslumbrante e dramaticamente convincente.
Vocalmente, Bernheim possui tudo o que o papel exige: um timbre claro e brilhante, capaz de projetar sobre a orquestra sem esforço, mas também com uma doçura e lirismo que tornam as árias de Hoffmann profundamente comoventes. A famosa “Kleinzach” no Prólogo foi um tour de force, mostrando seu controle de dinâmica e sua capacidade de contar uma história dentro de uma canção.
Mas é no aspecto dramático que Bernheim realmente se destaca. Ele não apenas canta o papel; ele vive Hoffmann. Vemos a sua euforia bêbada, a sua paixão avassaladora por cada uma das suas amadas, e, acima de tudo, a sua dor e desilusão quando cada uma delas lhe é arrancada. É uma atuação de vulnerabilidade e poder, que faz o público sentir cada golpe do destino junto com ele.
O Elenco de Apoio e a Direção Musical
Nenhuma produção de Hoffmann funciona sem um elenco forte, e o Met não decepcionou. A soprano que interpreta as quatro heroínas (Olympia, Antonia, Giulietta e Stella) teve a difícil tarefa de dar vida a quatro personagens distintas. Cada uma foi retratada com uma cor vocal e uma personalidade únicas: a automação mecânica de Olympia, a fragilidade doentia de Antonia e a sensualidade perigosa de Giulietta.
Igualmente crucial é o papel do vilão, que aparece como Lindorf, Coppelius, Dr. Miracle e Dappertutto. O barítono responsável por este quarteto de personagens demonstrou um domínio vocal e uma presença de palco ameaçadora, criando um antagonista que é ao mesmo tempo fascinante e repulsivo.
Na fossa, o maestro liderou a Orquestra do Met com uma mão segura, equilibrando a leveza da música de Offenbach com as suas profundezas mais sombrias. A “Barcarolle”, o número mais famoso da ópera, foi executada com uma beleza etérea que parou o coração do público.
A Relevância de Offenbach Hoje
Os Contos de Hoffmann é uma obra sobre a ilusão e a realidade, sobre o amor e a perda, sobre o artista e o seu demônio interior. Em um mundo obcecado por imagens perfeitas e relacionamentos superficiais, a história do poeta que busca o amor ideal e repetidamente encontra a decepção ressoa de forma poderosa.
A produção do Met, ancorada pela performance magistral de Benjamin Bernheim, nos lembra por que esta ópera continua a ser um pilar do repertório. Não é apenas uma noite de bela música; é uma exploração profunda e perturbadora da condição humana.
Para quem ama a ópera, esta é uma produção imperdível. E para quem ainda não conhece o talento de Benjamin Bernheim, esta é a oportunidade perfeita para testemunhar um dos grandes tenores da sua geração no auge do seu poder.