maio 23, 2026
Renascimento de “Roméo et Juliette” no Met: Um Elenco Ideal para uma Obra-Prima de Gounod
O Metropolitan Opera House, no Lincoln Center, em Nova York, voltou a ser palco de uma noite memorável. Em março de 2024, a casa apresentou a revival da produção de 1967 (sim, você leu certo) de Bartlett Sher para Roméo et Juliette, de Charles Gounod. Esta reposição chega logo após a estreia da nova produção de La forza del destino, e o veredito é unânime: a Metropolitan Opera tem dois grandes sucessos em cartaz.
É curioso como o destino das obras se entrelaça. Enquanto muitos concordam que Forza é uma obra problemática – com suas inúmeras mudanças de cena e locais, que desafiam qualquer encenação –, Roméo et Juliette de Gounod, por outro lado, parece encontrar um lar natural em produções que respeitam sua essência romântica e melodiosa. E é exatamente isso que Bartlett Sher faz, ou melhor, refaz, com maestria.
Uma Produção que Desafia o Tempo
A primeira coisa que chama a atenção é a longevidade desta produção. Criada em 1967, ela já passou por diversas reposições e continua sendo uma das favoritas do público. Isso se deve, em grande parte, à abordagem clássica e visualmente deslumbrante de Sher. O cenário, com suas arquibancadas e estruturas que evocam a Verona renascentista, permite uma fluidez cênica que é fundamental para uma história de amor tão intensa e trágica.
Não se trata de uma abordagem “moderna” ou “conceitual” que tenta subverter a obra. Pelo contrário, Sher abraça o romantismo da partitura de Gounod e a tragédia shakespeariana com uma honestidade que comove. As cores, os figurinos e a iluminação trabalham em perfeita harmonia para criar uma atmosfera que transporta o espectador diretamente para o coração da Itália do século XVI.
O Elenco Ideal: A Alma da Noite
No entanto, de nada adianta uma produção belíssima se o elenco não estiver à altura. E, nesse quesito, a Metropolitan Opera acertou em cheio. O verdadeiro triunfo desta revival está no elenco, que muitos críticos já apontam como “ideal”.
Os protagonistas, que interpretam os amantes mais famosos da literatura, conseguiram o equilíbrio perfeito entre virtuosismo vocal e entrega dramática. A química entre eles era palpável, algo essencial para que o público acredite na paixão avassaladora que nasce em um baile e termina em uma cripta. Não se trata apenas de cantar notas lindas – embora eles o façam com maestria –, mas de viver cada frase, cada olhar, cada suspiro.
A Voz de Romeu e a Alma de Julieta
O tenor que interpretou Romeu trouxe uma combinação rara de potência e lirismo. Sua voz, clara e projetada, preencheu o enorme auditório do Met sem esforço, mas foi nos momentos mais suaves e introspectivos, como na famosa “cena do balcão”, que ele realmente brilhou. Ele conseguiu transmitir a impetuosidade juvenil de Romeu, sua paixão cega e, posteriormente, seu desespero profundo.
Já a soprano que deu vida a Julieta foi simplesmente arrebatadora. Sua “Valse” (Je veux vivre) foi um tour de force de agilidade e charme, mas foi nos atos finais que sua performance atingiu o ápice. A transformação de uma jovem inocente em uma mulher disposta a sacrificar tudo pelo amor foi retratada com uma profundidade emocional que arrancou lágrimas da plateia. A “cena do quarto” e o dueto final na cripta foram momentos de pura catarse operística.
Gounod e Shakespeare: Uma União Perfeita
É importante lembrar que a ópera de Gounod não é uma mera tradução musical da peça de Shakespeare. O compositor francês, junto com seus libretistas, fez escolhas inteligentes, focando nos momentos mais líricos e emocionais da história. O resultado é uma obra que, embora omita alguns personagens e subtramas, captura a essência do drama shakespeariano de uma forma que apenas a música pode fazer.
A partitura de Gounod é um desfile interminável de melodias inesquecíveis. Do dueto de abertura (“Ange adorable”) à já mencionada valsa de Julieta, passando pelo quarteto do Ato III e pela cena do convento, a música flui com uma naturalidade e uma beleza que são a marca registrada do compositor. A orquestra do Met, sob a batuta de um maestro experiente, soube extrair toda a riqueza e a sutileza da partitura, desde os momentos mais íntimos e delicados até os clímaxes orquestrais mais poderosos.
Um Sucesso em Dobro no Met
A temporada do Metropolitan Opera em 2024 está se mostrando excepcional. Ter duas produções de altíssimo nível em cartaz simultaneamente – a nova e ousada Forza del destino e este revival clássico e impecável de Roméo et Juliette – é um feito notável. Demonstra a versatilidade da casa e sua capacidade de agradar tanto aos tradicionalistas quanto aos que buscam novas interpretações.
Para os amantes da ópera, esta revival é uma oportunidade imperdível de testemunhar uma produção que é um verdadeiro “clássico” do repertório, apresentada por um elenco que parece ter nascido para cantar esses papéis. É uma noite que celebra o poder do amor, a beleza da música e a magia do teatro.
Conclusão
A revival de Roméo et Juliette no Metropolitan Opera não é apenas mais uma reposição de um título popular. É a prova de que, quando uma produção clássica é bem cuidada e, acima de tudo, quando é servida por um elenco de primeira linha, a ópera atinge seu propósito mais nobre: emocionar e transportar o público para outros mundos. Bartlett Sher, com sua visão atemporal, e o talento vocal e dramático do elenco transformaram esta noite em um evento inesquecível, consolidando o Met como o epicentro da grande ópera mundial. Se você tiver a chance de assistir, não perca. É o tipo de espetáculo que nos lembra por que nos apaixonamos pela ópera.